Sábado, Outubro 24, 2009

Pequeno ensaio sobre autoridade

Autoridade e poder são palavras que despertam em nós (em mim, seguramente) sentimentos muitas vezes ambivalentes.
Uma orquestra é um micrcosmos onde poder, liderança, autoridade são negociados todos os dias, em todos os momentos. Diferentes maestros, diferentes formas de controle, formas diversas de seduzir e comandar é o que Itay Talgam nos mostra através do exemplo da arte de conduzir de vários maestros famosos. Comoventes os últimos momentos do filme em que Bernstein, sem conduzir a orquestra, se deixa ele próprio conduzir pela música e nos passa, a nós e aos músicos, a enorme alegria de escutar.
“If you love somebody let him free…”

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Ouvido Absoluto




Devo que confessar que sempre desconfiei dos cursos que garantem a pés juntos que se comprarmos a série de não-sei-quantos CDs mais respectivos livros e seguirmos escrupulosamente o regime que esses cursos propõe, ficamos - mais tardar em 10 dias - com ouvido absoluto.
Talvez devido ao conceito gráfico (deplorável, diga-se...) com que a publicidade a esses cursos se apresentava nas páginas da Downbeat, revista de referência dentro das publicações de jazz e que compro há não sei quantos anos ou talvez devido á irritantemente bem aparada barbicha do fulano que sorria para a câmara no referido anúncio nunca pude com aquilo. Digam-me lá se não é uma carinha de estalo?
Ele é muita bandeira americana, ele é muito "como descobri o segredo", ele é muito " também você pode descobrir as delícias do ouvido absoluto". Tem qualquer coisa de seita religiosa, grupo de auto-ajuda ou Associação dos Propietários de Armas de Fogos (do qual o Ben-Hur faz parte...) Enfim. Mexe com a minha natureza anti-clerical, anti-militarista e anti-imperialista. É verdade. Talvez seja apenas inveja mas sempre considerei o ouvido absoluto uma manha do imperialismo, do imperialismo musical, pelo menos (que palavra tão fora de moda, não é?). É que nunca vi ou ouvi (talvez seja desatenção minha...) grandes ideias musicais serem produzidas pelo facto do compositor/improvisador ter ouvido absoluto. Encontro com muita frequência ideias absolutamente fantásticas produzidas por quem possui (e sabe usar) o seu ouvido relativo. Estava eu nisto quando descubro no blog Musical Perceptions um teste tipo Deco aos cursos de ouvido absoluto. É treta? É verdade? será que um tipo fica mesmo a reconhecer a nota produzida por uma travessa de arroz de lulas quando cai ao chão? Qual é o melhor? qual é o pior? Validado por uma camada (embora fina) de verniz científico a coisa fica um pouco mais suportável.
Aqui fica um teste isento e imparcial (dizem eles...já não me acredito em nada) sobre os cursos de ouvido absoluto.
Depois digam-me alguma coisa que estou sem paciência para o ler...

Terça-feira, Setembro 29, 2009

VAI UM COPO?



Cheguei ás 10 mil visitas e nem reparei...(a maior parte sou eu que a partir das 2h da manhã entro e saio, entro e saio só para aumentar o web traffic...)

Vai um copo?

CRÍTICA ??!!

Vai ainda demorar algum tempo até que seja feita a história da crítica de Jazz em Portugal.
Quem são os críticos? Que formação têm? São músicos? Foram músicos? Como acederam á “profissão”? As aspas têm a ver com a dúvida: existe uma profissão de “crítico de Jazz” em Portugal? Pagam-se as contas do mês com a crítica dos discos de Jazz? Como é avaliada a qualidade do trabalho de crítico de Jazz? Não digo pelo público, que, de uma forma geral, toma como boa a opinião de quem tem o seu parecer impresso num jornal ou revista. O raciocínio de que “se aquele sr. escreve no jornal deve saber do que fala” basta tranquilizar o público em geral. Falo antes da avaliação por parte do “patrão”, pelo chefe de redacção do jornal ou revista onde a opinião do crítico se faz publicar.
É mesmo curiosidade minha: Como será avaliada a qualidade do trabalho do crítico de jazz ao serviço de um jornal ou revista? Pelas opiniões emitidas, pela escolha de material para rever, número de erros ortográficos por texto? (este último critério não deve contar já que o Word tem um revisor de texto bestial).... . Percebem a minha dúvida? Ou será apenas pelo currículo apresentado á data de início de funções e depois a “coisa” rola sem que o trabalho do crítico seja avaliado?.
A minha curiosidade sobre como se alguém se torna crítico está um pouco mais satisfeita já que tenho uma noção mais clara do processo.
A situação veio ter comigo quando, após a morte de um conceituado crítico de música ao serviço do jornal” Público”, me foi proposto o envio de um texto meu sobre Jazz, de 500 palavras (mais coisa menos coisa...) de forma a ser apreciado pelo chefe de redacção. Oh senhores, imaginei-me dali a uns anos, um pouco mais gordo (já que mais careca não será possível....) Hotel á pála (pequeno almoço incluído, claro), despesas de viagem e representação, lugar na primeira fila da plateia (os lugares mais caros... ) em muitos (todos?) os concertos deste país....De enigmático sorriso nos lábios iria assistir aos concertos e depois, músicos portugueses (e mesmo estrangeiros) seriam passados pelo apertado escrutínio da minha “lupa” musical, meu veredicto prantado num jornal de grande tiragem...
Acordei a transpirar e corri prá casa de banho.
Depois de reposta a respiração, decidi que na manhã seguinte, com um telefonema, iria declinar o convite e acabar com o equívoco. Mas fiquei a saber. Texto de 500 palavras sobre jazz e um gajo é crítico...e do jornal nacional de maior tiragem....
Outra estória sobre o acesso á “profissão” (as aspas continuam, já que, desde há pouco, ainda não consegui perceber se “crítico de jazz” é profissão) :
Certa publicação não recebe os discos de certa editora (nomes para quê? São artistas portugueses...). O director da revista estranha o facto e telefona ao da editora. “Pra que mandar discos, pá? Vocês não gramam a nossa música... Só iriam dizer mal.”
O da revista: “ Não há problema pá. A gente arranja alguém que grame o tipo de música que vocês fazem e que escreva sobre isso. Conheces alguém?”
O da editora: “Claro, mando-te o contacto.”
Ok. Mais uma forma de chegar a crítico.
Mas afinal isto tudo á volta da crítica vem a propósito de quê ?
Basicamente, a propósito do que li a páginas 25 da última edição da revista “Jazz.pt” texto assinado por Paulo Barbosa (PB) que analisa a prestação do pianista António Pinho Vargas na 7ª Festa do Jazz do São Luiz.
A forma grosseira, boçal, insultuosa, como o pianista e respectivo trabalho é descrito chocam a minha sensibilidade de leitor não só de crítica musical mas de qualquer outra forma de trabalho jornalístico. E acrescento que o que aqui escrevo não é motivado por qualquer espécie de amizade ou relação de proximidade com o pianista. Nem de amizade nem de proximidade. Não tenho especial simpatia pela pessoa mas tenho a noção de quanto o seu trabalho foi (é) importante para a definição de uma identidade musical não só do próprio pianista mas de uma ou mais gerações de improvisadores que lhe seguiram. A falta de respeito com que PB trata o pianista descrevendo-o como um “Jarrett falhado” ou declararando a sua mão direita é incapaz de “debitar” notas é insultuosa. E não falo na perspectiva do pianista. O sr. Pinho Vargas não precisará que o defendam. Falo na perspectiva do leitor. Sinto-me incomodado ao ler esse tipo de crítica publicada na única revista de jazz português, que, por ser única, tem responsabilidades acrescidas na divulgação, na formação de novos públicos e na forma como decide abordar a crítica da especialidade.. Não me interessa nada que PB goste ou não de Pinho Vargas. Não interessa nada que eu goste ou não de Pinho Vargas. É contudo, inadmissível, ver alguém que merece respeito artístico e pessoal ser tratado publicamente como um falhado.
O mesmo PB descreve uma versão de “Straight no Chaser” de Maria Viana como tendo deixado “Thelonious Monk ás voltas no túmulo” ... E , mais uma vez, este tipo de abordagem me choca enquanto leitor. Mais uma vez é irrelevante se gosto ou não da versão de Maria Viana (que não ouvi) mas isto não é, pura e simplesmente, linguagem para criticar o trabalho de seja que artista fôr. È uma coisa baixa, é agressão. Apenas revela a falta de recursos quer literários quer musicais mas especialmente de pura educação e respeito para com o trabalho dos outros demonstrada por PB.
A Jazz.pt é importante especialmente por ser única pelo que uma muito atenta avaliação deve ser feita ao trabalho dos seus redactores.
E volto á questão: Quem avalia o trabalho do “crítico”? (agora as aspas questionam mesmo se quem escreve textos como o que PB escreveu seja, realmente, crítico de Jazz.)

Domingo, Setembro 06, 2009

Sobre a afinação do saxofone

"E posto isto, se o conjunto boquilha/palheta/instrumento não constitui obstáculo natural á passagem do ar, não deverão haver discrepâncias de maior no que respeita a afinação. Os tipos de música que requerem uma afinação rigorosa são minoritários comparados com os mundos musicais que não a exigem. Mesmo quando toco com o "pai de todos os instrumentos desafinados" - os nossos queridos pianos - prefiro ouvir um som encorpado de saxofone com alguns "problemas" de afinação do que o oposto - o som "constipated" * , pseudo-clássico dolorosamente próximo das teclas temperadas do piano mas que nos deixa desesperados por whyskey ou com vontade de cometer um bom homicídio logo a seguir ao concerto, só para relaxar...."

* constipation=prisão de ventre

in http://www.softspeakers.com/

Sexta-feira, Agosto 14, 2009

Les Paul morre aos 94

O lendário guitarrista e inventor Les Paul, precursor das guitarras elétricas que levam seu nome, morreu na quinta-feira num hospital de Nova York, vítima de pneumonia, aos 94 anos.
Continuava a ter um gig regular num clube, mas ultimamente "ia entrando e saindo do hospital".

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

Rashied Ali, Don Cherry, James Blood Ulmer

RASHIED ALI (1935 - 2009)

Quinta-feira, Agosto 06, 2009

Ser saxofonista não dá saúde nenhuma...

Mais um curioso estudo intitulado
"Medical Problems of Saxophonists: Physical and Psychosocial Dysfunction among Classical and Non-Classical Performers" publicada no Saxophone Symposium, Volume 24 do ano de 1999.

Os resultados não são encorajadores da practica do saxofone, especialmente na vertente erudita do assunto. 50% dos nossos colegas "da clássica" sofrerão de depressão enquanto que 35% deles viverão num estado de ansiedade aguda. Por sua vez os saxofonistas de jazz reportam maior stress relacionado com o trabalho, cigarros e consumo de álcool . Enfim. Muito pouco saudável este instrumento. Não admira que se acabe a carreira a tocar blues ...
O artigo completo aqui.

"The results of this study identify numerous physical problems experienced by saxophone
players and illustrate differences in frequency and severity of problems between classical and
non-classical players. Both groups demonstrated frequent problems in upper body areas,
especially the right and left areas of the neck and in the right upper back. This issue may be
related to the unique practice of saxophonists, transferring the weight of heavy brass instruments to the neck and back area through the use of neckstraps. Another problem for saxophonists was the right wrist, an area identified as the most significant problem for performers of the clarinet (Thrasher & Chesky, 1998). In the case of saxophonists, classical players experienced problems at significantly higher levels than non-classical performers. In all musculoskeletal areas, classical players demonstrated higher percentages of problems at greater levels of severity than did non-classical players, an aspect of performance not dealt with in saxophone literature.
The leading non-musculoskeletal concerns for saxophonists were fatigue, headaches, and
depression. Classical players again reported much higher and more severe problem levels than did non-classical players. Over 50% of classical saxophonists suffered from depression, and
almost 35% suffered from acute anxiety. Although non-classical players experienced higher
levels of work-related stress and alcohol and cigarette use, they tended to report being in better condition both physically and psychologically
."

A estranha origem do Saxofone













"O Saxofone: as suas estranhas origens

O aparelho inventado por Adolph Antoine Sax por volta de 1860 foi inicialmente pensado como um processo de cura da asma.
Consistia num tubo em forma de “S” com uma ampola na extremidade onde era colocadoa medicação (provavelmente mentol ou laúdano). Era receitado ao paciente que inalasse e expirasse pelo tubo durante 20 minutos de manhã e á noite. Contudo, poucos tinham a paciência para o fazer e assim o sr. Sax teve a ideia de adicionar uma boquilha com palheta e as chaves necessárias para que o paciente pudesse tocar pequenas melodias sem ter de aprender música. Esperava manter as pessoas ocupadas tempo suficiente para que o tratamento fosse efectivo. Deu ao invento o seu nome e veio a morrer numa instituição psiquiátrica."

Artigo da autoria de Al Rose, especialista em música de New-Orleans
retirado da
African American Review, Vol. 29, No. 2, Special Issues on The Music (Summer, 1995), p. 233











O sr. Al Rose e a esposa.