sábado, fevereiro 11, 2017

Uma noite há 30 anos - Decateto de Mário Laginha


Fará este ano, em Agosto, 30 anos que Mário Laginha reuniu um grupo de músicos para uma noite de música original, arranjada especialmente para este ensemble - o "Decateto de Mário Laginha"-
Foi uma noite inesquecível para muitos, quer estivessem no palco ou no público aquela em Agosto onde, no palco do anfiteatro ao ar livre da Fundação Calouste Gulbenkian, se reuniram músicos de Lisboa e Porto para mais uma noite do festival Jazz em Agosto de 1987.
Apesar do sucesso dessa noite - como atestam os recortes que, graças ao cuidado e carinho de uma pessoa muito especial, resistiram este 30 anos - o "Decateto" teve uma brevíssima existência : apenas tocou mais uma vez, no Barreiro, ainda nesse ano.
Antes que se percam definitivamente os já escassos vestígios dessa noite há 30 anos, aqui os partilho para memória futura, com um abraço a todos os que estiveram em palco e muito especialmente ao Mário e á sua música.















Quarteto de Saxofones de Amsterdão (1991)

No programa "Joaquim Letria", da RTP1 em 1991 apresentou-se o QUARTETO DE SAXOFONES DE AMSTERDÃO ao qual se juntou, na segunda peça, o saxofonista aveirense Fernando Valente.
Já referido em post anterior, Fernando Valente foi uma figura importante no ensino e desenvolvimento da vertente clássica do saxofone em Portugal, desde fins de anos 80 até ao seu desaparecimento em ....(completar informação).
Infelizmente sem registo da peça em quinteto, fica a gravação do 1º tema tocado pelo Quarteto no referido programa, peça incluída no programa  "West Side Story", piece de resistance no  repertório do Quarteto de Saxofones de Amsterdão.


quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Entrevista a Pharoah Sanders - 2ª edição

Há uns anos, alguém com responsabilidades no meio do jazz me acusou publicamente de, numa entrevista que dei a uma revista especializada, ter tratado tão mal os críticos portugueses que, como consequência, um deles, sentindo-se tão amargurado com as minhas críticas, abandonou a carreira. Depois de um período em que tive que me beliscar repetidamente na tentativa de tirar a limpo se estava a sonhar ou se tinha entrado na twilight zone esqueci o assunto, não sem antes ter rabiscado um tema a propósito do episódio, o "Smoking Gun", gravado no CD "Once upon a Time in Portugal" do baterista Michael Lauren.
Hoje, ao vasculhar o site arquivo.pt , site que é como uma enorme sucata de páginas web descontinuadas, abandonadas pelos seus criadores, a estória voltou-me.
É que , entre o código html a granel, os scripts e os frames esquecidos que esse arquivo guarda, encontrei o que resta do blog desse crítico, que supostamente desistiu da escrita por minha causa. Antes de continuar, descansem.  Ele próprio me garantiu que seu o abandono da escrita não aconteceu pela razão invocada.
É que no tal blog - o Improvisos ao Sul - encontrei a entrevista que eu próprio fiz a Pharoah Sanders em 2004 e que em 2007  ofereci ao meu amigo crítico para publicação exclusiva no seu blog.
Do facto dessa entrevista repousar agora num cemitério de webpages vem a minha vontade de a voltar a "ressuscitar", não só porque é uma oportunidade de ouvir o mestre Pharoah a partilhar algumas memórias um registo que, creio, não lhe é muito habitual,  mas principalmente para eu próprio regressar a esse momento e ao enorme prazer que ele me deu.
Aqui fica a entrevista, feita em 2004 e publicada no blog Improvisos ao Sul em Agosto de 2007



agosto 03, 2007

EXCLUSIVO: JOSÉ MENEZES ENTREVISTA PHAROAH SANDERS


José Menezes e Pharoah Sanders

O Improvisos Ao Sul tem a honra de publicar - em exclusivo - uma entrevista feita em 2004 por José Menezes a uma verdadeira lenda viva do jazz, o saxofonista Pharoah Sanders.
Aqui está a transcrição da entrevista que fiz a Pharoah Sanders a 16 de Agosto de 2004 quando foi convidado do "Creole Project" de David Murray no festival de Sines. Na altura eu tinha um programa de rádio e decidi fazer esta entrevista mais por motivos pessoais - pela imensa admiração que tinha - e tenho - pela música deste senhor do que por imperativos de informação. O que é certo é que acabei por nunca passar a entrevista no programa - que entretanto acabou. Creio que, no fundo, me queria apenas "vingar" de um episódio ocorrido 27 anos antes e que faz parte da lista dos meus momentos olimpicamente falhados. Em 1977, tive conhecimento pela rádio da próxima realização do Festival Nouvelles Musiques de Chateauvallon. Era um festival de músicas de vanguarda e ainda nada de parecido tinha acontecido em Portugal. Soube também que o quarteto de Pharoah Sanders abriria o festiva razão suficiente para eu, fã como era - e ainda sou - do saxofonista, me ter decidido a lá ir. Ora Chateauvallon era - e ainda é - no sul de França e apesar de estar prevista uma excursão ao festival organizada pelo Rui Neves o meu orçamento não permitia tal luxo. De resto também nunca gostei de excursões... A boleia foi a opção. Resumindo: Depois de alguns dias na estrada e muitas peripécias que não são para aqui chamadas cheguei ao local do concerto 1 hora DEPOIS dele ter terminado. Calculem a frustação ... A minha vontade de ver e ouvir Pharoah, talvez até falar com ele, encontrou resposta com esta entrevista feita 27 anos depois do episódio de Chateauvallon. Partilho com quem a ler o prazer que tive ao fazê-la.
José Menezes


José Menezes (JM): Começou com o clarinete e depois passou para o sax tenor...
Pharoah Sanders (PS): Não. Sempre toquei tenor. Comecei com a bateria. Mas queria tocar clarinete.Então comecei a trabalhar a serio para comprar um.Na igreja. A minha família ia à Igreja Baptista e havia um senhor que tinha um "mellow clarinet"... então... poupava todos os domingos durante um ano e comprei um clarinete por 17 dólares ou 17 e meio, qualquer coisa assim.
JM: Estamos a falar de que ano?
PS: Estamos a falar á volta de... 1956 mais ou menos... e o tenor... sempre toquei tenor na banda..na banda da escola... mas andava sempre à volta do tenor, da tuba, do barítono da trompa do trompete... e algumas vezes o barítono. Outras o tenor... porque eu não tinha um tenor mas tinha um clarinete mas ainda tocava bateria na banda.
JM: Alguma vez gravou com barítono? Acho que não...
PS: Não, nunca gravei.
JM: Quem eram os seus ídolos quando começou com o tenor?
PS: Bem... comecei com o clarinete, flauta na escola e tocava o sax alto. E tinha que os pedir emprestados à escola [imperceptível] instrumentos... Trazia então o sax barítono o tenor e o alto... [imperceptível] e chamavam-me sempre “O LOUCO” (risos) porque os levava a todos ao ombro... mas a escola ficava perto de casa... ficava só a 3 ou 4 quarteirões.
JM: E quando era miúdo tinha algum ídolo, algum músico que quisesse imitar?
PS: Ouvia.... eh.. ouvia James Moody antes de começar a ouvir Charlie Parker. Eu não tinha dinheiro para comprar os discos de Charlie Parker mas havia um sítio de esquina onde paravamos, perto de minha casa que tinha uma juke-box e ouviamos muito Count Basie , “April in Paris” e James Moody, um tema que se chamava “Hard To Get”... nunca mais me esqueço... e lá ia para esse sítio onde paravamos... onde os estudantes paravam , sentavamo-nos perto da juke-box, com os nossos óculos escuros.Eu pensava que era mesmo um tipo cool...
JM: Nessa altura era habitual transcrever solos?
PS: Não me lembro que se transcrevessem solos nesse tempo... era escutando... de ouvido...nunca escrevi nada... mas um professor meu chamado Jimmy Cannon,era trompetista ,e como o seu ídolo era Clifford Brown levava para as aulas discos dele para nós ouvirmos... era o meu ídolo..
JM: Ainda pratica?
PS: Claro que sim... Sempre..pratico imenso no meu quarto de hotel... já pratiquei depois que cheguei... duma forma silenciosa... só com as chaves...
JM: Quando pratica, o que faz?
PS: Pratico o meu controle... sabe, há muita coisa que se pode aprender só de carregar nas chaves do saxofone... procurando digitações alternativas... controle dos dedos... há tantas dedilhações possíveis..eu, por exemplo, tenho os dedos curtos... tenho que encontrar maneiras de com os mover nas chaves... para uma melhor técnica.
JM: Como chegou ao contacto com John Coltrane? Como o conheceu?
PS: Conheci o John em 1959/60. Ele estava na Costa oeste a tocar num clube... acho que se chamava the Jazz Workshop. Era um clube em S. Francisco. Um clube de primeira.E havia outro, o Black Hole mas Trane ia sempre ao Jazz Workshop. Bom..conheci-o através de um amigo... sabe como é... está-se num clube...é-se músico... ou tenta ser-se músico... o meu amigo apresentou-nos... Nessa fase Coltrane andava à procura de uma mudança no seu som e mudava constantemente de boquilha. Eu ofereci-me para o levar a visitar as lojas de penhores. E foi assim. A partir dessa altura contactavamo-nos de vez em quando... telefonava-me... ou quando tocava na cidade eu ia ao clube onde ele tocava.
JM: O que sentiu com o convite de Coltrane para trabalhar e gravar com ele? E... que idade tinha nessa altura, por altura da gravação de "Ascension"? Foi o 1º disco que gravou com ele, não foi?
PS: Creio que sim. Estava em Nova Iorque e era um homeless. Estava longe de casa há 2 anos e meio... o meu aspecto era tão mau, tão sujo... não queria estar com ninguém..não podia ir aos clubes mas ouvia do exterior... Quando conheci o John eu estava em S. Francisco mas depois consegui uma boleia para Nova Iorque mas não sabia que a cidade era como era... fria e as pessoas... assim... digamos que não eram muito simpáticas... e tive que aprender isso à minha custa se queria sobreviver. Dava sangue para ganhar alguns dólares, tipo 5 dólares por uma garrafa de sangue. Assim podia comprar pizzas ou chocolates que me davam alguma energia. Nesse tempo dormia nas entradas dos prédios de apartamentos... enfim..dos que estavam abertos... Mais tarde... eu continuava a dar sangue... mas estava farto disso... pensei em arranjar algum trabalho e comecei a ter alguns empregos em Greenwich Village. Comecei então a trabalhar como cozinheiro... Guardei o meu saxofone num sítio qualquer... devo ter guardado... ah , já sei , escondido num lugar qualquer. Não se tratava dum emprego pago mas o patrão deixava-me comer à borla... bom... eu comeria à borla de qualquer maneira... (risos)
JM: Tempos difíceis...
PS: mesmo na McDoodlle Street. E nesse mesmo lugar onde trabalhava foi onde conheci Sun Ra. Eu trabalhava na cave. Lá em cima, no mesmo edifício, no clube, que se chamava Playhouse. Uma noite, um grupo começou a tocar e eu pensei “Espera aí! Que é que eles estão a fazer?”. E eram John Gilmore, Pat Patrick, Marshall Allen e alguns outros de quem eu não conhecia os nomes na altura. E então uma noite eu fui lá cima, durante o intervalo, e fiz saber a Sun Ra que eu era músico, que tocava tenor... e ele usou-me algumas vezes...quando o John Gilmore não podia... eu estava lá baixo na cozinha a trabalhar... e... que grande músico era o John Gilmore... um dos maiores músicos do mundo... Eu disse-lhe “quando o John Gilmore não puder ou faltar um saxofonista tenor... "E uma vez isso aconteceu... e parece que gostaram do que eu fazia e eu também gostava da música deles... mas o Sun Ra assustava-me... todas aquelas coisas na cabeça... à volta da cabeça e uma capa... mas Sun Ra era diferente de todos e a música do seu grupo não era parecida com nada do que eu tinha ouvido... e ele deixou-me tocar uma noite... Mais tarde eu descobri onde ele morava,ele deixava-me lá ir e dar uma vista de olhos à música e acho que gostou de mim como pessoa já que eu era muito sério em relação á música que eu queria tocar.
JM: Uma grande altura para estar em Nova Iorque e conhecer todos esses grandes músicos.
PS: Sim... mas dificil para mim. Estava demasiado sujo para sair e conhecer gente. Mas eu queria realmente fazer música... não queria arranjar um emprego de dia... nada disso. Já no Arkansas, que é a minha terra eu tocava com grupos de blues...
JM: Conhece alguma coisa de música portuguesa?
PS: Não mas gostava de conhecere já perguntei se havia algum instrumento característico que eu não conheça para levar.
JM: Vou oferecer-lhe um disco dum músico portugues recentemente falecido, Carlos Paredes.
PS: Já ouvi alguma música mas nunca com suficiente atenção para entrar nela, música de guitarra...
JM: Vou tentar arranjar esse disco já que, pessoalmente, gostava que conhecesse...
PS: Óptimo.
JM: Que música ouve actualmente?
PS: Ainda ouço muito tambores africanos, [imperceptível] música marroquina. Tive a oportunidade de gravar com alguns grupos marroquinos com quem ainda mantenho contacto e com quem espero no futuro viajar e fazer tournée.
JM: O que tem a dizer a um jovem músico de jazz?
PS: Bem... dir-lhe-ia para ouvir de dentro, fazer uma audição séria, não ouvir duma forma superficial. Não ouvir o exterior, ouvir por dentro. E esperar que assim perceba o que precisa de trabalhar... as escalas... todos os elementos necessários.É preciso ser realmente um bom ouvinte.
JM: Uma última pergunta. Qual é o seu objectivo quando sobe a um palco para tocar?
PS: Ao contrário de muitos outros músicos não vou para me divertir . Sinto que tenho uma mensagem. É isso que eu tento passar com a minha música. Espiritualmente e todas as coisas por que passei na vida. Tento tocar todas as minhas experiências. Não posso falar pelos outros músicos mas isto é o que eu sinto.
JM: Obrigado Mr. Sanders. Foi um grande prazer falar consigo.
PS: Obrigado.


segunda-feira, fevereiro 06, 2017

A noite em que Buck Clayton tentou roubar-me a namorada


Em 1977 eu era um jovem de 20 anos e a minha namorada tinha olhos verdes. Enormes.
Aquela noite de Junho prometia e do programa faziam parte a banda de Buck Clayton e o sexteto de Cecil Taylor.
A expectativa era grande (enorme) para o espectáculo do pianista. Ansiava por ver alguns dos "monstros" que povoavam o meu imaginário jazzístico da altura. Para além de Cecil Taylor, só por si um colosso, havia o fabuloso Jimmy Lyons no alto, Raphé Malik no trompete, Beaver Harris  e o (então jovem) David S. Ware. Brutal !
No palco e até lá, a banda do trompetista Clayton era apenas (pelo menos para mim) um concerto de aquecimento, um compasso de espera, já que o blues swing que praticavam não me entusiasmava especialmente.
Eu e a minha namorada, na 2ª ou 3ª fila em frente ao palco, não cabiamos em nós de contentes pelo facto de haver Jazz ao vivo (raridade na altura), internacional (mais raro ainda...) e a Norte (raridade absoluta!) . Ali em Espinho, ao pé de casa (morava no Porto na altura) .
A banda de Buck Clayton entra em palco, todos de fato azul (que raio, tinham de vir fardados, penso eu...) e o blues-swing-jazz começa a aquecer os motores. 
Música poderosa, aquele swing ...Talvez o primeiro tema não tivesse acabado ainda e eis que Clayton detecta os olhor enormes, verdes e brasileiros da minha namorada !!.
Creio que não voltou a olhar para a partitura !!!

Na altura com 66 anos Clayton era ainda, uma bela figura ! Bigodinho bem aparado, BrillCream pela nuca abaixo, sapato de verniz impecável e um swingalhão a correr-lhe nas veias estava consciente do seu charme e poder de sedução.

Durante todo o concerto os olhos malandros de Buck procuraram muitos mais os olhos verdes da minha namorada do que as blue notes da partitura (se é que havia partitura) .
Felizmente para mim, aos 20 anos é impossível ter ciúmes de alguém de 66, mesmo trompetista e sedutor.
A situação foi encarada, quer pela minha companheira quer por mim, muito mais pelo lado divertido do que doutra qualquer forma... 
 .
No fim do concertos, intervalo. 
Levantar - não longe das cadeiras para não perder o lugar - saber das últimas do festival (acidente com o excesso de passageiros nos comboios vindos do Porto) , por onde andavam os amigos , é verdade que o Rao tocará amanhã a solo, antes dos Soft Machine ? 
Vindo dos camarins, mesmo laterais ao palco vem um americano (negro e alto deve ser americano, certo?) direito a nós e informa que o sr. Buck Clayton gostaria de conhecer a menina no backstage.
Breve troca de impressões entre nós e o convite foi aceite.
De um charme e educação dignos do seu talento, Buck Clayton, recebeu a jovem, conversou, apresentou-lhe o resto da banda,  ficou com o seu contacto (postal, que naquela altura não havia internet...) e durante alguns anos (talvez dois ou três) de vez em quando lá aparecia um postal ou carta com um flyer anunciando mais um concerto do trompetista.
Uma noite de Verão em 77. Um estória para contar a(o)s amigo(a)s

Fotos e reportagem do festival AQUI





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