George Sarkis - "The Doctor Of Horns"


Na Alfândega, em processo de resgate do meu novo sax alto, um Buescher Aristocrat de 1960 comprado no ebay. Vem dos states, do estado de Washington, longe pra burro...
A coisa faz-se, não sem antes pedir o livro de reclamações (mau feitio, chiça...).
O cartaz que diz (sem um pedido de desculpas ou outra qualquer justificação) “NÃO TEMOS MULTIBANCO” é quase insultuoso num local –repartição de encomendas internacionais dos CTT- onde as quantias a pagar são a maior parte das vezes superiores a 100 € e onde, para se chegar, é necessário subir escadas. Pergunto “e então como pago?” . “Pode pagar em cheque ou numerário. Tem um multibanco a 3 minutos daqui” . Qualquer pessoa com mobilidade reduzida acharia esses 3 minutos uma anedota de mau gosto. Com subir e descer escadas, chegar à máquina de multibanco e regressar talvez chegasse a tempo de encontrar a repartição ainda aberta...ou talvez não. E depois a frequência com que os utentes têm de ir aquela máquina levantar quantias mais ou menos consideráveis garantirá a qualquer meliante da zona a garantia que no regresso a pessoa vai agradavelmente abonada o que a torna num potencial candidato a desagradáveis encontros.


Bom...Regresso ao carro de grande encomenda debaixo do braço...O x-acto que serve para raspar palhetas serviu para rasgar o plástico de bolinhas em que a coisa vinha envolvida. Na mala do carro abro a caixa  apenas para ver o sax e o estado em que veio...É lindo. Há muito que queria deitar a mão uma destas coisas... Uma tonalidade de amarelo torrado, o design retro de chaves e proteções tudo numa mala que remete de imediato para os anos 50. Fecho a caixa e regresso a casa a estalar de curiosidade e vontade de soprar na “coisa” e , finalmente, ouvir a sua voz.

Finalmente chegado, monto o tudel, coloco a boquilha e ....ok....vibra, soa, grita e sussurra como um vintage o deve fazer. Há aqui imenso a descobrir... Som escuro mas cheio de harmónicos... super excitante. Ao contrário do que anunciado (“fully functional for professional use”) o sax precisará de ajustes, algumas (todas?) sapatilhas e molas. Na viagem o espigão da chave de oitava sofreu impacto. Nada boas as condições de empacotamento. Deixarei isso expresso no feedback ao vendedor.
Vasculho o que  vem juntamente com o saxofone. Nenhuma boquilha, isso já eu sabia . Uma correia das antigas, palhetas muiiito antigas mas aparentemente em perfeito estado.Limpa-tudeis, lâmina de raspagem de palhetas, caixa de massa lubrificante para cortiças. Tudo com um aspecto de não ser usado nas últimas (muitas) décadas. Vê-se que houve utilização profissional, mas há muito interrompida. Imagino a estória deste objecto, do seu dono, da sua utilização. Procuro uma data, um papel, uma inscrição que me possa fornecer mais algum detalhe dessa estória. Um envelope dobrado várias vezes. Nada escrito, nada dentro... Vasculho no exterior da mala. As iniciais “R.G.T” escritas a tinta corretora branca.

Debaixo dos pequenos objetos e acessórios que referi vejo um pequeno papel, um cartão de visita. De um lado o calendário de 1957 (o meu ano). Do outro o nome “George Sarkis Expert repairing - Musical instruments New and used” e a morada 108, 18th street em Filadélfia.
Um achado ! muito mais do que eu poderia esperar. Um nome, uma data!
Fico a saber que este saxofone sofreu, em tempos intervenção do sr. George Sarkis na sua loja em Filadélfia.
Corro á net a saber quem foi este sr. De imediato aparece na página “
GEORGE SARKIS - "The Doctor Of Horns". Fico a saber que foi um dos mais famosos e procurados reparadores de saxofones dos anos 50, amigo pessoal de Parker a quem emprestou saxofones quando o músico não tinha instrumento em que tocar, amigo e reparador de Coltrane, a quem, durante alguns anos, forneceu e modificou boquilhas.
Uma surpresa , este pequeno cartão de visita que transformou o meu já elevado prazer em ter um novo saxofone em algo mais.
Pelos vistos e pelo que é aqui descrito a oficina de George Sarkis foi o hang-out de uma quantidade aterradora de génios do saxofone, figuras que de uma forma ou doutra, marcaram a história do Jazz.
Imagino aquela mala e aquele saxofone na pequena oficina do sr. Sarkis, no ano em que nasci. Por cima, por baixo e dos lados outras caixas, outros saxofones. Á porta enquanto esperam, Cannonball cavaqueia com Mulligan sobre o último jogo dos New York Giants. Faz frio.
A quem poderia ter pertencido o saxofone que agora repousa nesta sala, prestes a ressuscitar para mais alguns anos de música ?
in "Chasin the Trane" J.C. Thomas





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