sexta-feira, janeiro 04, 2008

das "Memoirs" de Hector Berlioz:

"Há 2 anos, numa altura em que o estado de saúde da minha mulher implicava muita despesa, mas algumas perspectivas de melhoras, sonhei, numa noite, que compunha uma sinfonia e ouvia-a no meu sonho.
Ao acordar consegui lembrar-me todo o 1º andamento, que era um allegro em A menor em compasso binário...Dirigia-me para a secretária para começar a escrevê-la quando, subitamente, pensei: "Se o fizer, vou ser compelido a escrever o resto. As minhas ideias tendem a expandir-se e esta sinfonia pode tomar umas enorme proporção. Gastarei talvez 3 ou 4 meses neste trabalho (levei 7 a escrever Romeu e Julieta...), tempo durante o qual não escreverei nenhum artigo de jornal, ou muito poucos, e o meu rendimento diminuirá substancialmente...Quando estiver escrita serei fraco ao ponto de me deixar persuadir pelo meu copista a copiá-la o que me irá implicar uma dívida de 1000 ou 1200 francos. Uma vez que as partes estejam prontas, vou ser amaldiçoado pela tentação de ouvir o trabalho tocado. Darei um concerto cujas receitas mal cobrirão metade das despesas - estamos assim actualmente...Perderei o que não tenho e ainda menos possibilidade terei de acudir á minha pobre e inválida mulher, ficarei sem dinheiro para me sustentar a mim próprio e para pagar o ingresso do meu filho no barco onde viajará brevemente."
Estes pensamentos provocaram-me um arrepio e pousei imediatamente o aparo pensando:" Não há problema. Amanhã já terei esquecido esta música.!" Naquela noite a sinfonia voltou a aparecer-me e a soar obstinadamente na minha cabeça. Ouvi o allegro em A menor duma forma perfeitamente distinta. Mais. Pude vê-lo escrito. Acordei num stado de excitação febril.Cantei o tema para mim próprio; a sua forma e carácter agradou-me sobremaneira. Estava a ponto de me levantar. Então os meus pensamentos anteriores regressaram e susteram-me. Permaneci quieto lutando contra a tentação, agarrando-me á esperança de que esqueceria tudo. Por fim adormeci. Quando acordei na manhã seguinte toda a lembrança da sinfonia tinha desaparecido."
in "Musicophilia" de Oliver Sacks

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