Chris Potter on "Wistful"


Transcrição aqui.

O solo de Chris Potter no tema “Wistful” é um daqueles pelos quais é impossível não ficarmos rendidos.
Gostei do solo – e do tema – desde a primeira vez que o ouvi mas não tive imediatamente a noção da riqueza e sofisticação que continha.
Obrigatório transcrevê-lo e imediatamente se revelaram  os pormenores e razões da elegância deste solo.
1º de tudo- o som.
Potter tem um perfeito controle do timbre do instrumento em todo o registo. Pode aterrar num  Bb grave vindo de uma nota super aguda sem que o ataque, afinação e suporte desse gravão se ressinta . Um suporte da coluna de ar  e uma embocadura  espantosas. Cada nota têm uma colecção de parciais muito bem organizada em torno da fundamental e a coerência dessa organização é total em todo o registo.
Depois o tempo e sofisticação rítmica.
Potter mantem-se (neste e na grande maioria dos seus solos ) num jogo constante com o beat da secçáo rítmica. Ora toca com eles, ora toca super delayed e “atrás do tempo” regressando ao ”centro” do tempo ou então usa figuras rítmicas que , ilusóriamente, dão a impressão de accelerando. Tudo isto com um enorme sentido musical, sempre a propósito, sempre consistente com a narrativa melódica.
A muito frequente  alternância de divisão binárias e ternárias do tempo ,  juntamente com a tensão criada pela oposição ou concordância do  “centro” do seu beat com o tempo da secção rítmica, faz com que ouçamos Potter sempre sentados na “borda da cadeira”, sem nunca saber qual a próxima "partida"  rítmica que nos irá pregar.
No caso do presente solo, muitos outros elementos se reunem para lhe dar interesse e transformá-lo num dos meus solos preferidos deste  saxofonista.
- O carácter melódico, lírico que deriva (em minha opinião) da grande dose de diatonicismo das linhas. Não há um uso tão intenso de tensões harmónicas como era natural esperar (ou não) num improvisador deste nível. Ou seja , com excepção dos compassos 32 e 46, na grande parte dos acordes de 7 (mesmo os de função dominante) são utilizadas notas diatónicas á tonalidade.
- Uma curva narrativa com um enorme equilíbrio com dois pontos altos quer no registo do instrumento quer na intensidade melódica, o 1º entre os compassos 20 a 25, o 2ª entre os compassos 49 a 52. Ou seja o 1º climax aos 37% e o 2º aos 80% do solo.
A utilização de toda a extensão do instrumento:  A nota mais grave do solo – Bb ao comp 37 a um C sobre agudo (comp 52)
Para além de melodias altamente inspiradas (comp 20 a 25, por exemplo) outros processos utilizados no solo incluem:
Deslocamento de oitava (comp 37 40e 41
Uso ou reconfiguração de material bebop (13, 33, 36, 42 e 43)
Utilização de escalas pentatónicas (comp 47)
Delayed resolutions (comp15)
Utilização de triades super.impostas (comp 30)
Utilização da escala alterada (comp 32) , diminuta (comp 35), tons inteiros (comp 46)
Aproximações a notas-alvo (comp 35)
Ornamentação de tríades (comp 11 e 12)

Enjoy.


Comentários

Sensacional!! Tanto o solo do Potter, quanto a descrição da transcrição!