sexta-feira, agosto 14, 2015

Partitura? para quê ?

A interessante questão levantada por um artigo publicado no Huffington Post "Why is Sheet Music Still Considered Necessary for Music Education?" fez-me regressar a um assunto que algumas vezes debati com outros músicos e algumas outras, apenas comigo próprio: a da necessidade de saber ler música para ser... músico.
A primeira vez que debati essa questão com alguém  foi em meados dos anos 70 com um amigo, como eu em início de carreira, que defendia que optaria por nunca estudar formalmente música dado que , em sua opinião, retiraria a "espontaneidade" ao acto de tocar. O argumento fez ressoar em mim dúvidas que até então não existiam. À partida e até aquela data sempre tinha tido interiorizado que para evoluir em qualquer área é necessário estudo. Mas o argumento do meu amigo deixou-me a pensar...
Mais para a frente encontrei outros músicos que - uns orgulhosamente, outros arrogantemente, alguns embaraçadamente - me diziam não saber ler uma partitura. Não só isso parecia não os afectar de todo como, pelo contrário, a música que faziam era muito mais viva, descontraída e aparentemente melhor do que a feita por muitas das orquestras ou grupos de "leitores" que existiam na altura, na cidade. Mas a comparação que sempre pairou na minha mente - a literacia musical e a literacia "literária" (saber ler e escrever) - fez com que sempre achasse impensável não aprender a ler música. Pela minha parte e para além dos fundamentos teóricos que aprendi,  devo muito á paciência e simpatia do pianista e maestro Carlos Machado por me ter ensinado os mil pormenores de que é feita a leitura musical "em tempo real"  ou seja, não no sossego do nosso quarto, livro de solfejo á frente, mas no palco, com o instrumento, tocando  no meio de uma orquestra uma música mais rápida do que os dedos conseguem acompanhar enquanto, por exemplo,  um ilusionista faz sair pombas de um lenço de seda. Foram essas as minhas primeiras tentativas (a maior parte das vezes frustradas) de "ler" música a sério.
Mas voltando ao artigo do Huffington Post e á frase cheia de significado algures transcrita no artigo, uma citação de Elvis Presley : "I don't know anything about music. In my line you don't have to."
A forma como Elvis se coloca no estatuto de entertainer ( e não de músico) revela, a meu ver a lucidez com que ele se via a si próprio, ao que fazia e ao seu estatuto de estrela.. Como entertainer o conhecimento musical não é necessário. É, talvez, até contraproducente... e vem á lembrança a anedota dos músicos de rock e de jazz, dos 3 acordes e das 3000 pessoas... Óbvia mente que ao longo da sua carreira, Elvis necessitou de músicos, e teve-os, dos melhores que o dinheiro podia pagar. Mas (tirando o meu amigo Mário Delgado) quem sabe quem foram Scotty Moore, James Burton, Ronnie Tutt ou John Wilkinson ? Esses, de que dificilmente ouvimos falar, tiveram de reunir ao longo de muitos anos um enorme know-how que fez deles primeiramente  "músicos" e só mais remotamente, "entertainers".
Desvalorizar a literacia musical colocando a questão da sua obsolescência é uma posição que me parece   refletir várias falácias ou mitos muito queridos do show-business ou da sociedade do espectáculo em que (sobre)vivemos .
1º) de que não há bastidores. O show-business  quer fazer-nos  crer  de que tudo o que vemos nos palcos especialmente os de TV é verdade. Abre-se a boca e cantamos maravilhosamente. Pegamos num instrumento e saem melodias fantásticas. Não há técnica, não há dificuldades, não há trabalho de médio e longo prazo. Mito altamente apoiado nos concursos de talentos onde, a nossa vizinha, de um momento para o outro, se transforma em ídolo nacional.
2º) TUDO é entretenimento .Tal qual descrito por Debord ainda nos anos 60, vivemos numa sociedade global em que tudo é espectáculo (concorrentes de reality-show em cenário de guerra!!!)  em que todos somos entertainers. As formas de comunicação de que dispomos, que usamos e de que abusamos colam-nos à pele, quer queiramos ou não, a missão de nos entretermos uns aos outros, situação da qual o facebook é o paradigma. Entretenhamo-nos uns aos outros como ele nos entreteve, poderá ser um slogan de um partido ou religião à escolha do freguês.
3º) A desvalorização do papel das Artes e Humanidades numa sociedade global regulada pela Finança. Para quê estudar Filosofia (ou Pintura, ou Música, ou Linguística, ou...) se isso não dá dinheiro? Ah, bom...estuda Música? e já apareceu na televisão? e a sua página quantos likes têm?
E a sociedade recompensa amplamente ou pune sem perdão o sucesso desse entretenimento ou a falta dele: as grandes fortunas para os grandes entertainers, um grande número de "likes" para os pequenos entertainers, a pena capital do esquecimento para os que não souberam conservar-se em palco.
Se com os concursos de TV todos podemos ser estrelas da canção pop, do canto lírico ou DJ de sucesso, ainda mais facilmente podemos "ser" músicos ou ser percebidos como tal. O que é minimamente recomendado? apenas que na foto do perfil de facebook apareças de instrumento...e já agora que haja alguma credibilidade no "look", apesar da incoerência no look também estar trendy. Como diz o autor do artigo, "Anyone in their garage could bang out a few power chords and claim punk status" . E isso não é apenas verdade para os "power chords" ou "punk status".....outros "chords" e outros "status" são reclamados de formas tão superficiais e igualmente vazias de conteúdo. O que está em causa é precisamente a definição de " músico", definição que há muito deixou de ser validada por uma série de rituais de passagem nos quais estava incluído saber "ler" música.
As visões populistas e anti-intelectuais da sociedade invadem muitos dos aspectos da nossa viva actual, Educação incluída. Este anti-intelectualismo é característico de todas as sociedades autoritárias das quais aquela de que fazemos parte vai manifestando cada vez mais sinais e a literacia musical vai claramente contra essa corrente.
O que dizer da importância de ler ou escrever música quando  canções cada vez mais simples (e más)  geram retorno (público/downloads/mediatismo) cada vez maior número ?
Ler, escrever e improvisar música são, em minha opinião, as três formas de conquistar uma liberdade musical muito mais vasta do que a conseguida por apenas uma dessas capacidades. Reduzir a importância de qualquer delas é reduzir a liberdade.
Para além da ferramenta técnica que representa prefiro encarar a capacidade de ler e escrever música como um instrumento de liberdade, uma ferramenta contra a corrente da sociedade-espectáculo em que (há demasiado tempo) vivemos, uma capacidade que, tal como saber ler o jornal ou escrever uma carta, ajuda a criar em cada um de nós um espaço íntimo de liberdade total e não-negocíavel onde cada um pode sonhar, criar, compôr, ser mais verdadeiramente ele próprio.

sábado, agosto 08, 2015

The World Got (Sax) Talent (I)

Como é que um instrumento como o saxofone é visto pelo grande público? Como é percebido pela cultura de massas? que estereótipos congrega á sua volta? Ou posto de outra forma, o que foi feito do saxofone ?   A imagem do saxofone e do saxofonista foi desenhada em muitos personagens de televisão e cinema criando ou reforçando clichés.   A isso ajudaram nos anos 60, Benny Hill e o imortal tema "Yakety Sax" tocado por Boots Randolph ou o personagem da Pantera côr de rosa e o tema de Henry Mancini tornado clássico pelo saxofone de Plas Johnson. Na década de 70 o Muppett Show de Jim Henson apresentava o saxofonista Zoot que marcou momentos de humor incríveis. Nos anos 80 aparece Kenny Gorelick e a sua forma hiper-açucarada de tocar. A imagem do saxofone nunca mais seria a mesma. O sucesso da música delico-doce de Kenny G tornou-o não só um recordista de vendas como num dos mais odiados saxofonistas da história. Num registo completamente diferente Liza Simpson com o o seu impulso incontrolável para improvisar foi talvez, uma das saxofonistas mais populares dos anos 90's juntamente com "saxophone-heros" como Clearence Clemmons na banda de Bruce Springsteen ou Tim Capello, o saxofonista body-builder que acompanhava Tina Turner em palco. Também nos 90's aconteceu o inimaginável até então: Os EUA tiveram um presidente saxofonista e o instrumento conheceu um pico de popularidade. Clinton talvez não fosse a minha 1ª escolha para o gig mas convenhamos que não deve ser fácil manter ao mesmo tempo uma boa embocadura e a paz no Médio Oriente. Também filmes como New York New York (Scorcese) ou Bird (Clint Eastwood) nos dão refletida a imagem do saxofone e do saxofonista para consumo imediato de grande público voraz de clichés . O novo milénio trouxe consigo um decréscimo do interesse pelo saxofone nas produções pop (coincidente, curiosamente, com um vigoroso renascimento do instrumento no Jazz de todos os quadrantes) mas a figura que sobrai é o do Sexy Sax Man, personagem caricatural, genial e incontrolável criado por Sergio Flores.
Nos últimos anos os programas televisivos de talentos têm revelado muito do que é a cultura musical de massas e, no que respeita ao saxofone, podem também ser elucidativos.
Proponho um apanhado dos momentos saxofonísticos nos "Got Talent" de vários países do Mundo.
Da Albânia à India,do Vietnam a Portugal. Para que serve um saxofone?









India

America

Britain

Vencedor (!!!) do ALBANIA's got Talent 2010



Espanha

The World Got (sax) Talent (II)

Arábia Saudita



Talento Argentino



Indonésia



Tailand's Got it, too

sexta-feira, agosto 07, 2015

The World Got (sax) Talent (III)


Kazakistão



Portugal

Colombia



República Checa

Eslováquia


Dinamarca




Espanha

The World Got (sax) Talent (IV)


Nigeria's Got Talent



Estados Unidos



Filipinas


Sweden Got Talent



Vietnam

Ben Ratliff "Coltrane: The Story of a Sound"

Entrevista de Ben Ratliff autor do livro "Coltrane: The Story of a Sound " á revista Esquire


"In 1957, John Coltrane was a young sax player still figuring out his sound. Ten years later, he was either jazz’s savior or destroyer, and dead from cancer. In his new biography, Coltrane: The Story of a Sound, New York Times jazz critic Ben Ratliff traces the evolution of one of music’s most bewildering titans.

ESQUIRE: For someone who blew a lot of minds, Coltrane seemed incredibly serious and mild-mannered.

BEN RATLIFF: Lots of people have stories about Coltrane and nobody says anything bad about him. He was a very careful and honorable guy, but artistically he was reckless. Alice Coltrane talked about how he would study pictures of cathedrals and somehow play them. I have no idea how that worked, but those were the kinds of things he was thinking about.

ESQ: You also write that he practiced obsessively, even in the twenty-minute breaks between live sets. Isn’t that at odds with what most people think about jazz improvisation?

BR: There’s a myth about any kind of music, and the myth about jazz is that it’s spontaneous, it comes from God, and you just play what you feel. But Coltrane established this new level of preparation and study. He was really into Eastern philosophies and meditation in the late fifties, way before all the free jazz shit was happening and everyone was a Buddhist. He could concentrate for a long time. And he understood that practice makes you a better person, makes music better, makes the crowds more receptive. It’s not at all uncommon now to know jazz musicians who probably study as hard as Coltrane did, but it was unusual then.

ESQ: In April of ‘57, Coltrane is fired by Miles Davis for showing up to shows high. The critics are giving him a hard time. His sound still isn’t together. He’s depressed. And yet, by the end of the year, he’s transformed himself into a major artist. What turned him around?

BR: Well, it was getting off heroin, it was stopping drinking, and he talks about having a religious awakening of some kind. But he also had his apprenticeship with Thelonious Monk, and that put him on an incredible stage, with an amazing band, and set him free to figure himself out as a soloist. Monk would get up from the piano for long stretches and it was up to Coltrane to figure out what he was going to do. So it was like lifting weights, like having an unbelievable trainer for six months, and it really woke him up.

ESQ: As the sixties progressed, his music became more and more unhinged. Instead of songs and melodies, he was playing long, noisy, formless solos. The jazz audience began to desert him. What happened?

BR: The sixties were a tumultuous time. Everything was questioned. And things became so politically identified that all of a sudden there was such a thing as conservative jazz and radical jazz. Some people say he had too much sympathy for these people who were telling him, “Coltrane, your music is going to change the world. You just have to keep going further and further toward freedom.” People were talking this way. I’m not making this shit up. “You don’t want to be shackled by the tyranny of rhythm.” But I can’t believe it’s that simple. Coltrane was a really smart guy. I don’t read him as someone who’s susceptible to flattery to the point where he’ll change everything so he can be down with the young people. I think he just found some of these concepts interesting and figured, “Let’s see what happens.” It’s entirely possible that, had he lived, his music would have come back from space and become more earthbound again.

ESQ: When Coltrane starting playing, jazz was popular music. By the time he died, he had pushed it to places most people weren’t willing to follow. Did he kill it?

BR: I don’t think he’s responsible. Realistically, what happened was rock smothered it. Jazz is a live music, but it’s also a business. If you look at Coltrane’s itinerary as a journeyman player through the early fifties, he’s playing in towns you’ve never heard of. Sewickley, PA. Tululu, LA. Inkster, MI. Every little town had some kind of roadhouse club. But then people weren’t going out to do that anymore. Music became a lot less local and more national and international. And jazz is a really good example of a local art because the more contained it is, the smaller the room, the more spur of the moment the playing is, the better it is. Mass-produced jazz in a big sterile room in the biggest mall in Houston would be terrible, but that would be the most efficient way to get it out there.

ESQ: Why are people scared of jazz today?

BR: I think because it’s serious, because it has a long history, because it has intellectual overtones, but also because it’s sort of earnest. Part of the reason jazz doesn’t fit within pop culture anymore is because it can’t really be self-consciously rebellious and shocking, which is very standard stuff now. And I guess that’s why there’s this cliché that you turn thirty and all of a sudden start to think, “Maybe I should learn about jazz, because now I’m old enough.”

ESQ: What was Coltrane’s greatest contribution to jazz?

BR: He opened it up. A lot of people refer to him as almost the father of world music. He was very early in the trend of American musicians looking to outside cultures. Even before he got into African and Indian music, there was a cheesy exotica sound in the late fifties -- records of bullfighting music, Hawaiian tiki lounge music -- and a lot of that music is ridiculous, but it’s an important chapter in American pop culture. Coltrane was as aware of it as anybody, but he didn’t want to make something that just had the outer trappings of some other culture. He wanted to take ideas from other kinds of music and bring them into himself as deeply as possible. And now everybody is doing this.

ESQ: So why should everyone listen to Coltrane? Give us your best argument.

BR: His work contains most of the well-known ideals of jazz. If you want to know something about swing, his stuff is incredibly swinging. If you’re interested in improvisation, this guy pushed improvisation to the wall. He was the best blues player of his time. He wrote and played incredible ballads. Record companies are still putting out compilations of Coltrane ballads called Coltrane for Lovers or whatever. You can poke fun at the idea, but if you ever listen to one, they’re indescribably beautiful.

ESQ: What’s the album to start with?

BR: I always say Crescent. It has some of the tumult and drive, but also incredibly beautiful music. A masterpiece."

retirado daqui

terça-feira, agosto 04, 2015

The joy of transgression.... sorry, transcription....



More than 700 pages of great solo trumpet transcriptions...
Get it HERE !

sábado, agosto 01, 2015

Frank Zappa - The lost interview

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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