quinta-feira, novembro 28, 2013

George Sarkis - "The Doctor Of Horns"


Na Alfândega, em processo de resgate do meu novo sax alto, um Buescher Aristocrat de 1960 comprado no ebay. Vem dos states, do estado de Washington, longe pra burro...
A coisa faz-se, não sem antes pedir o livro de reclamações (mau feitio, chiça...).
O cartaz que diz (sem um pedido de desculpas ou outra qualquer justificação) “NÃO TEMOS MULTIBANCO” é quase insultuoso num local –repartição de encomendas internacionais dos CTT- onde as quantias a pagar são a maior parte das vezes superiores a 100 € e onde, para se chegar, é necessário subir escadas. Pergunto “e então como pago?” . “Pode pagar em cheque ou numerário. Tem um multibanco a 3 minutos daqui” . Qualquer pessoa com mobilidade reduzida acharia esses 3 minutos uma anedota de mau gosto. Com subir e descer escadas, chegar à máquina de multibanco e regressar talvez chegasse a tempo de encontrar a repartição ainda aberta...ou talvez não. E depois a frequência com que os utentes têm de ir aquela máquina levantar quantias mais ou menos consideráveis garantirá a qualquer meliante da zona a garantia que no regresso a pessoa vai agradavelmente abonada o que a torna num potencial candidato a desagradáveis encontros.


Bom...Regresso ao carro de grande encomenda debaixo do braço...O x-acto que serve para raspar palhetas serviu para rasgar o plástico de bolinhas em que a coisa vinha envolvida. Na mala do carro abro a caixa  apenas para ver o sax e o estado em que veio...É lindo. Há muito que queria deitar a mão uma destas coisas... Uma tonalidade de amarelo torrado, o design retro de chaves e proteções tudo numa mala que remete de imediato para os anos 50. Fecho a caixa e regresso a casa a estalar de curiosidade e vontade de soprar na “coisa” e , finalmente, ouvir a sua voz.

Finalmente chegado, monto o tudel, coloco a boquilha e ....ok....vibra, soa, grita e sussurra como um vintage o deve fazer. Há aqui imenso a descobrir... Som escuro mas cheio de harmónicos... super excitante. Ao contrário do que anunciado (“fully functional for professional use”) o sax precisará de ajustes, algumas (todas?) sapatilhas e molas. Na viagem o espigão da chave de oitava sofreu impacto. Nada boas as condições de empacotamento. Deixarei isso expresso no feedback ao vendedor.
Vasculho o que  vem juntamente com o saxofone. Nenhuma boquilha, isso já eu sabia . Uma correia das antigas, palhetas muiiito antigas mas aparentemente em perfeito estado.Limpa-tudeis, lâmina de raspagem de palhetas, caixa de massa lubrificante para cortiças. Tudo com um aspecto de não ser usado nas últimas (muitas) décadas. Vê-se que houve utilização profissional, mas há muito interrompida. Imagino a estória deste objecto, do seu dono, da sua utilização. Procuro uma data, um papel, uma inscrição que me possa fornecer mais algum detalhe dessa estória. Um envelope dobrado várias vezes. Nada escrito, nada dentro... Vasculho no exterior da mala. As iniciais “R.G.T” escritas a tinta corretora branca.

Debaixo dos pequenos objetos e acessórios que referi vejo um pequeno papel, um cartão de visita. De um lado o calendário de 1957 (o meu ano). Do outro o nome “George Sarkis Expert repairing - Musical instruments New and used” e a morada 108, 18th street em Filadélfia.
Um achado ! muito mais do que eu poderia esperar. Um nome, uma data!
Fico a saber que este saxofone sofreu, em tempos intervenção do sr. George Sarkis na sua loja em Filadélfia.
Corro á net a saber quem foi este sr. De imediato aparece na página “
GEORGE SARKIS - "The Doctor Of Horns". Fico a saber que foi um dos mais famosos e procurados reparadores de saxofones dos anos 50, amigo pessoal de Parker a quem emprestou saxofones quando o músico não tinha instrumento em que tocar, amigo e reparador de Coltrane, a quem, durante alguns anos, forneceu e modificou boquilhas.
Uma surpresa , este pequeno cartão de visita que transformou o meu já elevado prazer em ter um novo saxofone em algo mais.
Pelos vistos e pelo que é aqui descrito a oficina de George Sarkis foi o hang-out de uma quantidade aterradora de génios do saxofone, figuras que de uma forma ou doutra, marcaram a história do Jazz.
Imagino aquela mala e aquele saxofone na pequena oficina do sr. Sarkis, no ano em que nasci. Por cima, por baixo e dos lados outras caixas, outros saxofones. Á porta enquanto esperam, Cannonball cavaqueia com Mulligan sobre o último jogo dos New York Giants. Faz frio.
A quem poderia ter pertencido o saxofone que agora repousa nesta sala, prestes a ressuscitar para mais alguns anos de música ?
in "Chasin the Trane" J.C. Thomas





sábado, novembro 16, 2013

Dixit




“It’s not technique, its timing” —Oscar Peterson
“Practice without accents” —Oscar Peterson
“The body is a rock; the arms are snakes” —Claudio Arrau
“All notes are ‘up’ notes” —Martha Argerich
“Feel the Ground” —Anton Rubinstein
“It’s all about circles” —Chick Corea
“Think of elephants, giraffes and hippos as you play” —Bill Evans
“C fingerings in all keys” —Franz Liszt
“Giant Steps solo in all keys” —George Coleman
“Music is Technique”—Nadia Boulanger
“Practice for the performance” —Chick Corea
“You must be a good draftsman before you can be a great painter” —Bill Evans
“Practicing is pushing a wall—you wake up the next day the wall has moved” —Bill Evans
“Don’t force the keys” —Art Tatum (to Red Garland)
“Each time is different”—Artur Schnabel, upon practicing the same phrase 200 times
“Three hours before breakfast” —Mike Stern
“Enslavement to the notation” —Craig Taubman
“Nothing difficult about it—just hit the right keys at the right time” —J.S. Bach
“You can’t be unhappy and be learning something new at the same time” —Merlin

"this is your LIFE"


Keith Jarrett - The Art of Improvisation

Sobre improvisação e um dos seus grandes mestres - Keith Jarrett.
 
 


 


 

 
 

 
 

 
 

quarta-feira, novembro 13, 2013

Cuidados intensivos II

 
Depois de alguns ensaios preliminares a fórmula da massa especial desenvolvida por Fabrice Wambergue  parece estar "no ponto".
As fotos da sua experiência/teste feita com uma velha boquilha de clarinete parecem confirmar que irá ser possível a recuperação total da minha "François Louis".
Á suivre.....
 
 
 
 
 




segunda-feira, novembro 04, 2013

Cuidados intensivos

 
Tal como a torrada cai sempre com a manteiga para baixo, a minha boquilha François Louis tinha que cair naquele pequeno espaço de chão não coberto por tapete. E de nariz direto ao solo. Aquela coisa do Murphy....
Pedi ajuda/conselho num daqueles grupos de nerds do facebook (gosto imenso de nerds e há 50 anos que estudo pra me tornar um...) O grupo chama-se (com uma grande falta de imaginação...) "Saxophonists" e é bestial.  4 mil e tal membros doidos por saxofones... Dantesco !!!
Uns aconselharam-me a colocar a boquilha no lixo, outros garantiram que mesmo depois de arranjada (se é que isso seja possível) a boquilha nunca seria a mesma, outros deram-me contactos (nos Est. Unidos) de óptimos "refacers" e técnicos de boquilhas.O meu amigo Richard Scotto indicou-me em Paris um seu amigo técnico...
Enfim... A meio da conversa, recebo uma mensagem de Fabrice Wambergue, membro do grupo, entusiasmadíssimo por eu ter uma François Louis a precisar de intervenção. Ele é reparador e luthier em Paris e há muito que andava com vontade de testar o seu engenho numa dessas boquilhas, a única feita de um material inovador ("grounds") .
Propõe-me tentar reparar graciosamente a boquilha, pagando eu apenas os portes. Encantado.
Tanto mais que como muitos saberão, mesmo na Europa, é raro encontrar técnicos reparadores/transformadores de boquilhas, coisa que nos States é prática corrente. De notar que não há (que eu saiba) um único no nosso País.
A boquilha chegou hoje ao seu atelier, e apesar de se confessar um pouco apreensivo com a tarefa que tem pela frente, está desejoso de começar.
Prometeu ir enviando fotos das fases do trabalho que eu colocarei aqui.
 
Stay tuned!!
 
check it out !
 
FABRICE WAMBERGUE
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